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A força motriz dos jogos de sobrevivência

Como Dig or Die constrói uma máquina de movimento perpétuo para não se tornar entediante.

autor Rodrigo Borges   datahora 02/10/2017 às 17:08:22   tagarelices 1

Como Dig or Die constrói uma máquina de movimento perpétuo para não se tornar entediante.


Em meu texto anterior, falei sobre como os mundos do gênero metroidvania motivam o jogador a continuar explorando-os. Propus que há uma relação de necessidade e oportunidade entre os obstáculos a serem superados, que estão sempre visíveis, e as ferramentas para superá-los, que devem ser encontradas. Neste artigo, analiso alguns jogos de sobrevivência, focando em como Dig or Die coloca o controle do ciclo de jogo nas mãos do jogador.

Jogos de sobrevivência (ou o que quero dizer com isso)

Apesar de estar usando um termo existente que nomeia todo um gênero de jogos, acho importante definir o que são “jogos de sobrevivência” neste texto. A descrição do gênero é irrelevante para a discussão, e estou interessado especificamente em jogos que:

  • Consistam de um mundo aberto para ser explorado;
  • Ofereçam recursos que serão coletados e processados; e
  • Exijam do jogador exploração e coleta para prolongar sua sobrevivência.

Para exemplificar a definição que estou usando, temos o famoso Minecraft, os não-tão-famosos-quanto Don’t Starve e Project Zomboid, e o objeto de estudo Dig or Die.

A narrativa nestes jogos, quando existe, costuma resumir-se a uma pincelada introdutória e um desfecho de sucesso. Talvez você acorde em um mundo fantasioso e consiga derrotar o guardião que te prende nele; ou talvez presencie o início do apocalipse e acabe reconstruindo a civilização como a conhecemos. De uma forma ou de outra, o consumo desta narrativa leva alguns segundos, mas a experiência do jogo pode chegar a dezenas de horas. Que estratégias podem, então, ser utilizadas para segurar o jogador por tanto tempo sem um input narrativo?

Homem lendo para criança: "era uma vez dois aventureiros e eles viveram felizes para sempre"

Main game loop

O ciclo de jogo, também conhecido como game loop ou main game loop, representa o fluxo de ações do jogador que descreve sua experiência no jogo. Em jogos de sobrevivência, o ciclo de jogo sempre começa com (1) o consumo de recursos para continuar vivo, causando sua escassez na região, o que motiva (2) a exploração de novas áreas para que novas fontes sejam encontradas, que por sua vez (3) promove conflitos com monstros ou o passar do tempo, que exige (1) o consumo de recursos.

Fluxograma

Para trazer um elemento de estratégia e uma sensação de dominação para o jogador, estes jogos oferecem uma mecânica de renovação de recursos. A construção de hortas, criações de animais, geradores de energia, coletores de chuva e outras estruturas semelhantes motivam-lhe ao recompensar a “colonização” do ambiente hostil onde ele foi colocado. Um estímulo para o ego ao invés de uma submissão nômade atrás da benevolência do mundo. Esta mesma mecânica, no entanto, quebra o ciclo que movia a experiência. Quando a sustentabilidade de recursos é atingida, (2) e (3) deixam de ser motivados e o jogo pode tornar-se entediante de uma hora para outra.

Buscando manter o ciclo vivo, Don’t Starve e Project Zomboid adicionam pressão externa à experiência. Enquanto o primeiro traz estações do ano com situações extremas de temperatura, o segundo corta o suprimento de água e eletricidade à medida que os dias passam. O objetivo das duas soluções é destruir a estabilidade que o jogador conquistou usando ações do desenvolvedor do jogo.

Minecraft, por sua vez, tenta mudar a experiência do jogador quando a estabilidade é alcançada. Oferecendo um mundo virtualmente infinito em tamanho e uma variedade cada vez maior de blocos de construção, os limites deixam de ser ditados pela necessidade de sobreviver, que passa as rédeas para a curiosidade e criatividade. Isso forja um novo ciclo, não necessariamente estático, que pode ser modificado pelo próprio jogador.

Fluxograma

Dig or Die

Dig or Die se passa em um planeta remoto, onde um representante da CRAFT&CO, empresa produtora de ferramentas automáticas, torna-se um náufrago quando sua nave sofre uma falha e cai no planeta. A partir dos recursos minerais, vegetais e animais do mundo, o jogador deve construir um foguete capaz de tirá-lo de lá. Não há medidores de fome, sede, sanidade ou energia para serem gerenciados, apenas sua vida.

Minerais mais resistentes e criaturas mais fortes contêm recursos necessários para equipamentos mais avançados, e eles estão distribuídos pelo planeta, habitando-o de forma quase pacífica. Toda noite, no entanto, o jogador é atacado freneticamente pelas espécies de criaturas que ele tenha matado ao menos um exemplar. Ou seja, avançar sua aquisição de recursos implica aumentar o desafio do jogo deste ponto em diante.

É até possível atingir uma estabilidade entediante, mas para isso é necessário literalmente parar de jogá-lo. Partiria do jogador a interrupção do ciclo, e basta que ele aplique alguma tração para que o jogo exija que ele continue a alimentar a máquina. Equivale-se, eu diria, a um hamster que, ao movimentar sua roda de exercício, precisa continuar correndo para não ser lançado para fora.

Hamster na rodinha de exercícios

Concluindo

A solução de Dig or Die para manter o ciclo de jogo ativo provavelmente não é mais cativante que as dos outros jogos mencionados, com os quais tive experiências mais duradouras. Ainda assim, considero-a extremamente elegante, por manter o ciclo deste gênero de jogo intacto; e imersiva, por usar uma ferramenta que combina o comportamento do mundo do jogo com a interação do jogador. Ela faz uso da relação entre necessidade e oportunidade que tenho abordado, e acredito que seu estudo possa inspirar soluções de game design que criem mundos mais independentes da interferência dos desenvolvedores. Os esforços deles podem, então, ser direcionados para outros aspectos do jogo que conquistem o jogador.

* Revisado em 02/10/2017 às 18:44:34

outras tags: Dig or Die, Don’t Starve, Minecraft e Project Zomboid

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  • avatar de helisonbsb
    helisonbsb
    04/10/2017 às 22:36:04
    Dig or Die tem bons gráficos!!!! Texto um pouco complexo...usando o termo ¨sobrevivência¨nos moldes vida virtual e jogo que as vezes vc depende de tudo que está em volta para sobreviver. É mais ou menos parecido com a vida real...temos que trabalhar para sobreviver, pagar as contas e comprar video game...Qual seria a nossa necessidade real: Seria tentar sobreviver nesse mundo violento que vivemos. Estamos em uma época em que a mídia praticamente está torcendo para ter uma nova guerra mundial. A violência que paira nesse mundo onde a mídia tentar arrancar nossa atenção para ter audiência. Qual seria o nossso objetivo de vida? Seria tentar sobreviver nesses moldes que muitas vezes está no jogo. Infelismente não temos como fazer aquela famosa ¨manha¨de 30 vidas do jogo contra (nes) ou ter vidas infinitas. Vivemos no Caos, Governo corrupto, sociedade cheia de preconceitos: cor, classe social e religião. Cara, quanta estupidez os humanos tem em suas mentes diabólicas. Por isso que gosto de jogar video game também...tentar esquecer essas idiotices que nos cercam, infelizmente é por pouco tempo e no outro dia começa tudo de novo. Triste isso!!!! Então, estamos a todo o momento tentando criar, inovar e conseguir vencer esses obstáculos da vida...As vezes fico pensando que não estamos longe daquela vida de cinema: The Walking Dead, mad max e outros similares. A sobrevivência não é só conseguir sobreviver e sim tentar nos adaptar perante essas coisas malignas que existem e driblar mal olhar de pessoas que vc pensa que são amigas...são poucas pessoas que podemos confiar, contar segredos e até pedir favores. Sobreviver virou privilégio de poucos, porque muitos desistem ou não tem condições de continuar essa jornada da vida e acabam passando para o lado negro da vida. A vida é um dom e dificuldades estão ao nosso redor...estamos em um mundo aberto onde todas as direções não tem para onde correr. Violência, falta de solidariedade e respeito ao próximo só existem mesmo para poucas pessoas, porque a maioria mesmo só pensa em dinheiro. Dinheiro traz felicidade e ao mesmo tempo desconfiança...O mundo gira em torno do dinheiro, que financia a guerra, a descoberta de doenças e a cura fica mesmo só na esperança. Se encontrarem a cura para tudo isso ai que eu citei...não será de graça!!!! A dificuldade mesmo é tentar sorrir, manter o sorriso e continuar sorrindo!!!! Valeu

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